A Poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal nos circuitos independentes
No dia 11 de Novembro de 2024, reunimo-nos na BNP para o debate “As vozes da Afrodiáspora. Literatura, Música e Cinema”, uma iniciativa da Biblioteca Nacional com organização e curadoria de Marta Lança e da Buala. Foi-nos perguntado (na qualidade de investigadores e investigadoras, artistas e curadores) o que achávamos sobre o campo artístico português, em termos de representatividade e da inscrição de vozes negras, com atenção para as narrativas da diáspora e dos espaços de exclusão e ocupação da cidade de acordo com essas mesmas vozes. Fomos também instigadas a pensar sobre as formas em que o racismo institucional afecta essas produções artísticas, e sobre as pistas e contribuições que as produções artísticas podem-nos fornecer para pensar esses assuntos e o seu impacto junto da sociedade.
Pelo que respeita a literatura e, de forma específica, a poesia, Portugal tem acompanhado – com bastante força, mas com alguma resistência em comparação a outros países marcados por um forte passado colonial – as mais amplas discussões sobre herança e violência colonial, necessidade de descolonização, representatividade e liberdade criativa. Essa última, longe de ser um tema menos relevante, tem principalmente a ver com o direito à criação artística para além de expectativas relacionadas com pertença a determinado grupo. Muitas escritoras têm chamado a atenção para as complexas interseções entre questões raciais e de género no mercado literário e no ambiente cultural de uma forma geral (pensemos, por exemplo, em O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo1, de Djaimilia Pereira de Almeida, entre outros).
Consideradas essas questões, as publicações em circuitos independentes – apesar de apresentarem desafios acrescidos em relação aos circuitos tradicionais - oferecem, sem dúvida, uma maior liberdade de expressão e publicação às suas autoras e aos seus autores. Por um lado, elas constituem-se, muito frequentemente, como alternativas mais acessíveis e abertas aos circuitos tradicionais, permitindo que os autores ultrapassem dificuldades próprias desses mesmos circuitos. A escrita de autoria afrodiaspórica e imigrante assume-se também como rede: um ponto de convergência entre saberes e trajetórias que atravessam continentes (África, América do Sul e Europa, entre outros), reinventando laços e redes de circulação muito para além dos canais mainstream. É ainda na editoria independente que, por outro lado, têm-se discutido e debatido de forma mais concreta e contundente, em Portugal, questões culturais e sociais relacionadas com migração, afrodescendência, herança colonial, opressão e questões de justiça social.
Uma das primeiras experimentações da última década e um marco, no âmbito da poesia, foi Djidiu – A herança do ouvido, coletânea publicada em 2018 pela associação Afrolis. O volume, que reuniu 56 poemas escritos por vários autores foi, de acordo com a própria Afrolis, fruto de encontros e testemunho da oralidade que passa para a escrita. Lançado no Museu do Aljube, Cristina Roldão evidenciou como, o volume, nesse processo de escrita coletiva, constituiu-se como um “património de contranarrativa”. “Djidiu”, que em guineense indica o griot, o contador de histórias, foi igualmente uma ferramenta de discussão política, um testemunho vivo da “experiência de ser um corpo negro diaspórico” e, ao mesmo tempo, uma forma de partilha e cuidado2. O próprio título da obra sublinha esta intenção de registo:
“Djidiu, em guineense, designa o contador de histórias, aquele que memoriza as histórias para depois as poder contar e recontar. É justamente este gesto de criação de um «lugar de fala», que valoriza a palavra como um instrumento que tanto se diz como se ouve e o arquivo como modo de potenciar a fala e a escuta, que está na base do livro Djidiu.”
Homem com antenas, Francisco Vidal
Esse percurso de escuta, que permite re-colocar a enunciação a partir dos corpos historicamente subalternizados através da propaganda e, sobretudo, da ação colonial, abdica tanto da pretensão de objectividade, como da de neutralidade. É uma escrita que reconhece a sua própria subjetividade, que é habitada pelo deslocamento, pela tensão linguística e por ressonâncias afetivas. A condição de trânsito, de ambivalência e de vivência na fronteira (que Gloria Anzaldúa definiu de “borderlands”3) não é, por outro lado, exclusiva da diáspora negra em Portugal. Por conta de questões históricas e coloniais, contudo, no país são as diásporas negras e afrodescendentes as mais atingidas pela discriminação e pela injustiça social. O racismo estrutural, que atinge tanto a propaganda colonial como as suas raízes capitalistas, tem atuado por meio da perpetuação de representações e práticas discriminatórias – portanto, não se limita ao âmbito do discurso, resultando em ações, práticas e até ações legislativas concretas. Pensemos, por exemplo, nos recentes desenvolvimentos políticos do país quanto às leis de imigração, mas também no impacto desigual da grave crise habitacional junto das comunidades historicamente mais vulneráveis.
A necessidade de criação de um espaço coletivo e partilhado é, assim sendo, uma exigência imprescindível dentro da comunidade artística e literária migrante e afrodescendente em Portugal e noutros países europeus, tendo-se as iniciativas culturais de coletivos e associações multiplicado na última década. Nessa mesma lógica de partilha e de reforço da comunidade têm surgido projetos como a Afrolink e a Bantumen os quais, apesar de terem um foco mais amplo e um recorte jornalístico, dedicam-se também à cultura, à literatura e às artes produzidas por pessoas afrodescendentes em Portugal, trabalhando ativamente para a valorização dessas produções, no sentido de contrariar desequilíbrios na cultura, em Portugal e nos países em que se fala português. Esse campo da experiência comum e partilhada não é sinónimo de homogeneidade: as comunidades com percursos diaspóricos em Portugal são diversas e as suas vivências frequentemente muito distintas, pois o espectro do passado colonial atua a diferentes níveis. Apesar disso, as pautas e urgências comuns são incrivelmente convergentes em vários campos, a demonstração de que a colonialidade acaba sempre por atingir negativamente a sociedade como um todo.
A língua é, ainda, um espaço de disputa partilhado – tanto no contexto de Lisboa, como no país como um todo. Isto acontece não só em virtude da tentativa de hierarquização entre o português europeu e as outras variantes do português (ou, ainda, da predominância do português falado entre as elites lisboetas e resto do país), mas também da cada vez mais marcada presença, no espaço artístico, do crioulo, do kimbundu, de outras línguas coloniais como o francês, mas também de línguas indígenas e de outras línguas europeias. No campo da poesia, seja ela escrita ou performada, a ressignificação das normas linguísticas e a reivindicação da riqueza e dignidade das línguas minoritárias vão de mão dada com o empenho para uma mudança epistemológica, para um afastamento da lógica colonial e patriarcal que caracteriza a sociedade e a produção cultural portuguesa hegemónica. O contexto do slam e da spoken word tem, neste sentido, ganhado cada vez mais espaço, a testemunha da força e da relevância da oralidade nos processos artísticos.
O aparecimento generalizado do ativismo linguístico serve tanto como esforço de reparação, na tentativa de reverter – na medida do possível – a violência da língua colonial, como testemunha viva de que a diáspora e a migração geram alteridades: somos versões diferentes de nós mesmas nas línguas em que falamos, pensamos e escrevemos. Este aspecto tem sido, recentemente, evidenciado por Jamila Pereira (poeta e jornalista, a residir em Londres) no seu ensaio “Resisting Linguistic Genocide”, publicado em The Republic4. Como a autora evidencia:
“In the cases of Guinea-Bissau, Angola and Mozambique, former Portuguese colonies, the colonial regime even established, utilizing a law, the conditions for a native to leave the situation of ‘indigenous’ (stop being an uncivilized person, as dictated by that law) for that of ‘assimilated’. […] By submitting the colonized into assimilating and forgetting their heritage and language, Europeans expanded their beliefs of rubbing off identity and nationality from them; linguistic and cultural erasure became crucial to destabilizing and reshaping minority groups.”
Este aspecto tem, sem dúvida alguma, reflexos e consequências nas produções artísticas, na escolha dos sons e das palavras. A escrita – sobretudo a poesia – constitui-se, então, como espaço de resistência e solidariedade, mas também de cura e reconhecimento junto da(s) comunidade(s) de pertença. Nas entrevistas e conversas realizadas no âmbito de dois projetos de investigação que integrei (com destaque para o Afrolab, liderado por Ana Paula Tavares), ficaram evidentes tanto as pressões que o mercado editorial exerce aos escritores pertencentes à comunidade migrante e afrodescendente, tanto a nível de expectativas de conteúdo, como a nível de perpetuação de práticas. É importante lembrar que, tal como muitas autoras entrevistadas (Yara Monteiro, Djaimilia Pereira de Almeida, Gisela Casimiro, entre outras) sempre fizeram questão de remarcar, a auto-afirmação da experiência afrodescendente tem uma inegável carga cultural e política. O mesmo não se pode dizer, contudo, quando ela é invocada enquanto categoria imposta do exterior, para satisfazer as necessidades analíticas – tanto da academia, como do mercado editorial5. Cabe separar, portanto, a reivindicação da vivência enquanto ato cultural e político de certa curiosidade quase “antropológica” frequentemente levada a cabo por certos sectores progressistas da sociedade e que, consciente ou inconscientemente, irremediavelmente acaba por cair na categorização de partes da sociedade - aconteça isto por necessidades ou desejos do mercado, ou em função de mecanismos de funcionamento das instituições culturais e académicas.
Neste sentido, e para além da questão linguística, a experiência de resistência, protesto e luta ligada à reiveindicação da imaginação da palavra (especialmente como narração de si, da comunidade e da sociedade fora dos moldes opressivos e de expectativas coloniais e neocoloniais), mas também do direito ao quotidiano e da recusa a encaixar-se num lugar pré-atribuído pela sociedade, são uma constante na produção poética contemporânea por autoras afrodescendentes. Baste pensar, a título de exemplo, nos versos de Raquel Lima que, em “Planeta África”, declama:
afroresiliente
afro não-condescendente
gostaria que áfrica não fosse um prefixo inconsequente
que fosse um planeta em vez de um continente.6”
A palavra de Raquel Lima é escrita, mas também falada, querendo configurar-se (como a própria autora esclarece) como ação e movimento, tal como o seu corpo diaspórico em conexão e reconexão múltipla com as suas raízes. Para além da língua, da narração da experiência negra e diásporica e da memória (vertentes que nos trazem, novamente, de volta para a tradição griot) a corporeidade é, portanto, um elemento constitutivo do ato poético. A poesia não é só escrita, não se configura como um ato puramente intelectual, mas sim como um ato de cultura viva – ela acontece, e esse acontecimento envolve a memória, o corpo, a identidade. É presença. A poesia contemporânea configura-se, mais uma vez, como possibilidade, como um espaço potencialmente livre de amarras, onde a palavra não é só escrita, mas nasce sobretudo como palavra performada, com uma relação íntima com a oralidade – factor, esse, que toma dimensões ainda maiores no caso da poesia que remonta à experiência das diásporas africanas, cujo património cultural e literário passou, mais afincadamente, pela expressão oral.
O que acomuna, então, essas experiências migrantes e diaspóricas tão diversas? Ser corpo migrante, diaspórico, em movimento traz consigo as suas marcas e múltiplas possibilidades: traz, inevitavelmente, para o campo da criação as vivências experienciadas por quem deixou de ser uma coisa só e teve de tornar-se pessoa outra. Nessa dimensão de inevitabilidade, de necessidade e de processo que acontece, enraíza-se a poesia. Ela traz as memórias de lugares, formas de falar, de mover-se no espaço, afetos e resistências talvez originariamente não “de aqui”, mas que passam a sê-lo no momento em que esses corpos se inscrevem no território. No Portugal contemporâneo, será a poesia mais um espaço não só para pensarmos critica e politicamente, mas também para sermos e estarmos, para além das fraturas segregantes que as sociedades contemporâneas, cada vez mais violentamente, nós querem impor?”
Referências
Anzaldúa, G. 1987. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books.
Lima, R. “Planeta África”, Ingenuidade, Inocência, Ignorância. Coimbra: Boca, 2019.
Pereira De Almeida, D. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo. Lisboa: Companhia das Letras, 2023.
Tavares, AP, Fina, R, Alfieri, N, Lopes S, Soares, A. Escritas Afrodescendentes. Estudos, Entrevistas e Testemunhos. Lisboa: Colibri, 2025.
Silva, F. Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos, Buala, 27 de Janeiro de 2018.
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Artigo do conjunto “Vozes da afrodiáspora em Lisboa”, que se seguiu ao encontro a 11/11/2024 na Biblioteca Nacional.

- 1. Djaimilia Pereira de Almeida. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo. Lisboa: Companhia das Letras, 2023.
- 2. Esses temas são abordados no podcast disponibilizado em 22/02/2018 na página da livraria Tigre de Papel (Lisboa)
- 3. Gloria Anzaldúa. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
- 4. Jamila Pereira. “Resisting Linguistic Genocide”. The Republic, 26/03/2023. https://rpublc.com/april-may-2023/colonialism-in-guinea-bissau
- 5. A questão foi recorrente nas entrevistas realizadas com as autoras e publicadas em: Ana Paula Tavares, Rosa Fina, Noemi Alfieri Sofia Lopes, Arimilde Soares (org). Escritas Afrodescendentes. Estudos, Entrevistas e Testemunhos. Lisboa: Colibri, 2025.
- 6. Raquel Lima. “Planeta África”, Ingenuidade, Inocência, Ignorância. Coimbra: Boca, 2019, p. 26.